Vivemos um ressurgimento da epidemia, diz pesquisador sobre a Aids no Brasil

Vivemos-um-ressurgimento-da-epidemia-diz-pesquisador-sobre-a-Aids-no-BrasilAinda distante de uma vacina ou do remédio que promoverá a cura, o Brasil vive a maior epidemia de Aids de todos os tempos, desde a descoberta do vírus, em 1981. Só em 2013, por exemplo, foram identificados 39.501 novos casos da doença no País. O panorama fica ainda mais nebuloso quando se comparam os indivíduos nascidos nas décadas de 60, 70 e 80 com a geração atual, de pessoas nascidas a partir de 1990 — os grupos de jovens de hoje em dia têm três vezes mais soropositivos do que os de seus antecessores.

 

O alerta é do pesquisador do Departamento de Medicina Preventiva da Faculdade de Medicina da USP Alexandre Grangeiro, que avisa que ainda teremos que conviver com o surto de HIV por mais, no mínimo, dez anos.

 

De acordo com ele, nunca tantos casos foram registrados como acontece hoje em dia. Na opinião dele, trata-se de uma situação “bastante grave”, já que, do surgimento, aumento e estabilização já ocorridos no curso do vírus no Brasil, hoje passamos para um ressurgimento de uma epidemia.

 

— Há uma mudança de comportamento sexual na população, e as novas gerações estão mostrando comportamentos menos seguros que as anteriores. Menor uso de preservativo, menor frequência de testagem, menor consciência em relação à gravidade da epidemia. No entanto, mesmo que a vacina não surja, podemos dar conta de conviver com esta epidemia ainda hoje. Com os conhecimentos adquiridos pela medicina, hoje em dia já é possível não se infectar. E, se a pessoa se infectar, é possível usar os medicamentos tanto para não transmitir quanto para não morrer por causa disso.

 

A imunologista holandesa, Irene Adams, que trabalha com Aids há quase 30 anos, concorda com Grangeiro e ressalta que o Brasil é um dos poucos países no mundo que continua com aumento da população jovem infectada pelo vírus HIV.

 

— O jovem pensa que não vai acontecer com ele e não utiliza os métodos de prevenção. Eles não viveram na época em que as pessoas infectadas sofreram muito e ficaram na mídia, como Cazuza, por exemplo. Essa geração não sabe o mal que a doença pode fazer.

 

Em contraposição ao aumento dos casos entre os jovens, nos últimos dez anos, a mortalidade por Aids caiu 13% no Brasil, passando de 6,1 mortes a cada 100 mil habitantes em 2004, para 5,7 casos em 2013.

 

A infectologista Rosana Richtmann, do Instituto de Infectologia Emílio Ribas e membro do CTAI (Comitê Técnico Assessor de Imunizações) do Ministério da Saúde, também considera que as condições para controlar a doença evoluíram.

 

— HIV hoje é uma doença plenamente controlável. O paciente que leva a doença a sério felizmente não está mais morrendo, porque ela se torna crônica e controlável.

 

Essa realidade, aliada à consciência de que tanto a sobrevida quanto a qualidade desta sobrevida aumentaram consideravelmente nas últimas décadas, pode ter colaborado para o aumento do comportamento promíscuo da nova geração, de acordo com Grangeiro.

 

— Junte-se a isso a forma como os jovens veem a sexualidade, como buscam seus parceiros. E isso não é percebido apenas com a Aids, mas também com as taxas de sífilis e gonorreia, por exemplo, que têm aumentado expressivamente. Sem dúvida, viver com HIV hoje é muito mais fácil do que era até o início dos anos 2000. Há, sim, um peso grande do ponto de vista social, com o preconceito, e também a reorganização exigida por causa do tratamento. As pessoas podem até ter uma expectativa de vida muito próxima da população em geral, mas isso não significa que vão ser as mesmas condições de viver.

 

Transmissão

 

O HIV pode ser transmitido pelo sangue, esperma e secreção vaginal, pelo leite materno, ou transfusão de sangue contaminado. De acordo com dados do Ministério da Saúde, entre os maiores de 13 anos de idade ainda prevalece a transmissão por via sexual.

 

Nas mulheres, 86,8% dos casos registrados em 2012 decorreram de relações heterossexuais com pessoas infectadas pelo HIV. Entre os homens, 43,5% dos casos se deram por relações heterossexuais, 24,5% por relações homossexuais e 7,7% por bissexuais. O restante ocorreu por transmissão sanguínea e vertical.

 

Irene também chama a atenção para o aumento no número de casos entre idosos. Segundo ela, no mundo inteiro, inclusive no Brasil, muitas pessoas de mais de 50 anos estão descobrindo que são portadoras do vírus.

 

— O número de novos casos nos idosos é assustador. Com o Viagra [medicamento usado para manter a ereção], o homem consegue uma vida sexual depois de certa idade. Além disso, não só no público masculino, mas os idosos são muito mais ativos, não ficam só em casa. Se um idoso perde o parceiro ou a parceira, ele sai e encontra outras pessoas, mas, como se casou muito cedo, não tem costume de usar preservativos, e não sabe se prevenir de doenças transmissíveis, pode acabar se contaminando.

 

Testes rápidos de HIV

 

Atualmente, a rede pública de saúde conta com 518 centros de testagem espalhados pelo País. Além disso, como uma tentativa de facilitar o acesso ao diagnóstico, medidas como a ampliação dos métodos de detecção vêm sendo implantadas.

 

No último dia 20, por exemplo, a Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) aprovou as regras para o registro de autotestes por meio da saliva, a serem futuramente vendidos em farmácias. Com a aprovação, o Brasil passa a ser o quarto país no mundo com regras que permitem a venda de kits de diagnóstico para HIV.

 

Embora a aprovação tenha gerado discussões como, por exemplo, o risco que um paciente correria ao receber sozinho um diagnóstico positivo, ou a conscientização a respeito da janela imunológica (intervalo de tempo entre a infecção pelo vírus e a produção de anticorpos anti-HIV detectáveis no sangue), Grangeiro vê diversas vantagens na liberação.

 

— Esta iniciativa permite que um número maior de pessoas realize o teste. Há muitas que não podem ou não querem ir ao serviço de saúde, e o teste vai poder, de forma mais importante, participar do cotidiano preventivo das pessoas, oferecendo autonomia e possibilidade de decisão sobre a prevenção. Já a reação negativa ou a janela, isso existe mesmo nos testes convencionais, de modo que não vejo isso como algo que possa impedir autoteste.

 

Rosana também considera o autoteste um instrumento útil, que contribui para um melhor controle da doença. Para ela, quanto mais cedo houver o diagnóstico, melhor.

 

— Quanto mais a gente souber da condição do paciente, se ele tem o vírus ou não, obviamente conseguiremos agir mais cedo. Vejo isso com bons olhos.

 

Estamos vencendo a luta contra o HIV?

 

Na opinião de Irene, a disponibilização dos testes rápidos não é tão vantajosa. A imunologista ressalta “que quem recebe o diagnóstico positivo pode não estar psicologicamente preparado para isso”.

 

— Onde trabalho, fazemos uma pré-consulta para trabalhar o emocional da pessoa. Receber o diagnóstico de portador do vírus HIV é muito difícil. Além disso, os testes rápidos não são 100% eficazes, e uma pessoa que é portadora pode ter um resultado negativo e manter os hábitos errados, sem prevenção, e pode transmitir o vírus sem saber, infelizmente a psicologia do humano é assim.

 

Políticas públicas

 

Apesar do aumento no número de casos em jovens e idosos, Irene ressalta que o País continua trabalhando na prevenção da Aids e na transmissão do vírus HIV com propriedade. Segundo ela, antigamente só era feita campanha de conscientização em datas como o Carnaval.

 

— Hoje tem propaganda na televisão, até com a mãe do Cazuza. É uma propaganda forte e impactante, essencial para as pessoas perceberem a gravidade da doença. Além disso, antes só havia a obrigatoriedade da notificação de Aids, mas agora é obrigatório notificar portadores de vírus, para se ter um panorama maior do risco no País.

 

Fonte: noticias.r7.com

Vacina anti-HIV da USP passa em teste inicial com macacos

O projeto piloto do teste em macacos de uma vacina contra o HIV desenvolvida pela USP obteve resultados preliminares surpreendentemente positivos, afirmam os cientistas que o conduziram. “Testamos a resposta imune dos animais e os resultados foram excelentes”, conta Edecio Cunha Neto, pesquisador que liderou os trabalhos de desenvolvimento da vacina. “Os sinais foram bem mais intensos do que os que encontramos em camundongos”, diz Susan Ribeiro, cientista associada ao projeto.
 
O aumento da resposta imune, comparado ao estudo com camundongos, foi de 5 a 10 vezes, dependendo do macaco testado. A surpresa dos pesquisadores, que ministraram três doses separadas por 15 dias em quatro macacos-resos do Instituto Butantan, se deu pelo fato de que normalmente a reação a essa modalidade de vacinação é menor em primatas do que em roedores.
 
Trata-se de uma vacina de DNA. Os cientistas “escrevem” nessa molécula trechos de genes que codificam pedaços de proteínas do vírus causador da Aids. Com a inserção do DNA no organismo, a ideia é que ele seja usado dentro das células para fabricar só essas miniproteínas (chamadas peptídeos), sem o vírus original. Esses pequenos pedaços proteicos foram escolhidos com base em pacientes que têm resposta imune incomumente alta ao HIV. Estudos conduzidos desde 2001 chegaram a 18 peptídeos que são candidatos a produzir reação forte do sistema de defesa.
 
Testes feitos em camundongos modificados para ter imunologia similar à humana mostraram que é possível ensinar células responsáveis pela identificação de patógenos invasores a identificar esses peptídeos e atacá-los.
 
A premissa é que, se o sistema imunológico aprender a reconhecer esse material rapidamente e reagir para destruí-lo, é isso que ele fará ao encontrar o HIV de verdade.Contorna-se, portanto, um dos maiores desafios de combate ao vírus: o fato de que ele costuma passar ileso pelo sistema imunológico, que não o reconhece como um invasor perigoso até que seja tarde demais. Como o HIV infecta justamente as células de defesa, ele desativa mecanismos do nosso organismo que nos defendem de infecções.

 

Vacina anti-HIV

Vacina anti-HI


 

Os dados obtidos pelo projeto-piloto são animadores, mas ainda não consistem em prova definitiva de sucesso. Um dos problemas é o número reduzido de animais. A ideia agora é expandir o teste para 28 macacos e desenvolver um protocolo diferente, que envolve outra forma de administrar a vacina. Em vez de injetar o DNA diretamente no organismo, a proposta envolve incluir o DNA que codifica esses peptídeos do HIV no genoma de vírus “atenuados” -incapazes de causar infecção mas indutores de potentes respostas imunes. Uma opção seria usar o vírus da vacina da febre amarela em combinação com outros vetores virais, aparentados da vacina da varíola e do causador do resfriado nos chimpanzés. O procedimento torna esses vírus uma espécie de dublê do patógeno mortal.
 
Espera-se que a resposta imune seja ainda mais poderosa com o uso desse recurso. Caso os testes sejam todos bem-sucedidos, estará pavimentado o caminho para os ensaios clínicos com humanos. O grupo da USP busca parceiros na iniciativa privada para conduzir essa etapa final, que envolve custos da ordem de R$ 250 milhões. Até o momento, a pesquisa consumiu cerca de R$ 1 milhão.

Estudo revolucionário pode resultar na descoberta de vacina contra Aids

Uma grande notícia é assunto de uma das mais conceituadas publicações científicas do mundo. Pesquisadores, inclusive brasileiros, participaram de um estudo revolucionário que pode resultar na descoberta de uma vacina contra a Aids, uma doença que mata 2,5 milhões de pessoas ao ano.

Há 16 anos, um homem surpreendeu os cientistas que pesquisavam Aids. Eric Fucks viveu os anos loucos quando a epidemia começou a se espalhar em Nova York, mas nunca desenvolveu a doença. Foi o primeiro identificado com uma característica genética que não impede a contaminação, mas bloqueia a reprodução do vírus no organismo. Um mistério, mas não um milagre.

Hoje os cientistas já sabem que uma em cada 300 pessoas tem essa característica genética que impede o desenvolvimento da Aids, a doença, em pessoas contaminadas com o vírus HIV. Mas como funciona essa proteção? Qual é o mecanismo por trás dessa característica? E como transformar isso num benefício para todos? As respostas começaram a surgir em uma pesquisa com a colaboração de brasileiros

A pesquisa liderada pelo americano David Watkins teve participação fundamental de cientistas da Fundação Oswaldo Cruz, no Rio. Eles usaram a vacina contra febre amarela, que foi desenvolvida no Brasil, como base para criar outra, contra a Aids dos macacos, provocada pelo SIV, variante do HIV, que causa a doença entre os bichos.

O resultado, publicado na edição deste domingo (30) da Nature, a revista científica mais importante do mundo, pode mudar os rumos da busca por uma vacina contra Aids.

Na equipe, um jovem de 24 anos, que ainda nem terminou a faculdade. “Nossa vacina é baseada em engenharia genética. Toda essa parte da construção dos compostos fui eu que fiz”, conta Marlon Santana, bolsista da Fiocruz.

A engenharia genética funcionou assim: apenas um milésimo do DNA do vírus do SIV foi incorporado à vacina da febre amarela, justamente o pedaço que os cientistas acreditavam estar ligado à resistência contra o vírus.

Oitenta macacos resus foram vacinados e depois expostos ao vírus em um laboratório em Miami. Todos desenvolveram a proteção natural. E o mistério começou a ser desvendado.

Normalmente, quando entra na corrente sanguínea, o HIV invade as células brancas do sangue e cola o seu DNA no da célula, que passa a produzir centenas de cópias do invasor. É a fábrica de vírus, que são liberados no sangue para invadir outras células e continuar se reproduzindo e tomando conta de todo o organismo. Quarenta e oito horas depois de contaminada, e de ajudar a produzir milhares de vírus, a célula de defesa morre e a pessoa contaminada fica exposta às infecções provocadas pela Aids. Nos macacos vacinados, foi diferente.

“Eles têm células assassinas contra o vírus. Eles estão destruindo a fabrica do vírus dentro dos macacos”, explica Watkins.

A vacina estimulou a produção de células T, as células assassinas, porque elas identificam o glóbulo branco contaminado, colam nele e despejam uma substância que provoca a morte do glóbulo branco antes que o vírus comece a se reproduzir. É a capacidade de produzir essas células T que evita a infecção.

“O que precisamos agora é entender porque essas células T em particular são tão eficientes em controlar o vírus. Se entendermos isso, aplicaremos os mesmo princípios na vacinação para humanos”, diz o cientista.

É um novo conceito de vacina, diferente da tradicional, que estimula a produção de anticorpos.

“Nós não estamos resolvendo o problema, mas nós estamos ajudando a nortear por onde o desenvolvimento de uma vacina da AIDS tem que seguir”, acredita.

E se esse caminho levar à vacina, o Brasil estará numa posição privilegiada. Como o maior produtor mundial de vacina de febre amarela, poderá ter também a dianteira na produção de uma vacina contra a Aids.

Fonte: Globo Comunicação e Participações S.A
http://fantastico.globo.com/Jornalismo/FANT/0,,MUL1681825-15605,00-ESTUDO+REVOLUCIONARIO+PODE+RESULTAR+NA+DESCOBERTA+DE+VACINA+CONTRA+AIDS.html